Dia 19 - Venenos


Nesses dias não tenho tido tempo nem para pensar direito, final de ano eu sempre sinto que tento correr na direção contrária da escada rolante, enquanto a maioria está entrando no clima natal, verão e férias eu tento correr na direção oposta porque o ano está acabando e falta horas no meu relógio para eu resolver os problemas decorrentes do final do ano aqui no meu emprego, mas algumas postagens e alguns comentários aqui e em blog das pessoas que eu amo muito me fizeram parar.
Voltei pra minha sacola de recuperação e vasculhei o que eu poderia trazer de "luz de túnel".

Tema: Rancor e Ódio.

Por muitas vezes na minha jornada eu me senti deslocada, porque eu era uma pessoa que sentia rancor, sentia ódio. Meu familiar estava em recuperação, limpo e frequentando as reuniões de N.A. , mas mesmo assim eu me sentia desorientada e muitas atitudes dele me deixavam com muito ódio.
Então, vinha o sentimento de inadequação, eu me sentia inadequada por ter esse tipo de emoção, me punia por ser uma "Nada te agrada?". Fiquei assim até o dia que admiti numa reunião esse meu sentimento feio, foi como um milagre ver os rostos que me rodeavam, alguns ali também sentiam o mesmo que eu, e foi como se uma bóia fosse jogada quando ao final da reunião uma companheira veio conversar comigo sobre o que estava me embarulhando.
Ela disse que eu não deveria reprimir meu ódio, que eu deveria controlá-lo, para que ele não me dominasse, a raiva é um sentimento! Ruim ou não é uma sentimento e reprimi-lo é como deixá-lo em uma estufa... Ele irá crescer e dar frutos, no caso desse sentimento o crescer é virar uma frondosa árvore de ódio, os frutos: rancor, magoas, sarcasmo, e atitudes violentas... isso quando não apodrece e vira auto piedade, sabotagem e brigas!
Guardar mágoa, rancor, ódio, ou raiva é como beber um veneno e esperar que o "foco" do nosso sentimento morra!
Nosso familiar tem atitudes inadequadas, ou que pensamos ser inadequadas - bifurcação no caminho! - olhamos para um lado da estrada e vemos a possibilidade de controlar o sentimento, amadurecer o sentimento, nos acalmar e pedirmos uma conversa adulta, franca e de preferência calma - entenda preferência como primordialmente, estou apenas tentando ser assertiva! rs - do outro lado da estrada vemos a segunda opção, nos calar, fazer cara de ameixa seca e esperar que o outro "se toque" - PELO AMOR DE DEUS, VIVEMOS E CONVIVEMOS COM UM ADICTO E NÃO COM A MÃE DINÁ! - o adicto, ou outra pessoa qualquer não entende nossos "toques", e não espere de ninguém saber o que vc está pensando, ser assertiva não é deixar de falar, mas falar com as palavras certas (calmas e justas ) e na hora certa (calma e justa).
Aprendi no nar-anon que não tem como eu esperar que uma conversa seja calma se eu estiver me comportando como o furacão Katrina, é preciso antes me acalmar, conversar comigo mesma, sentir e separar o que realmente me aborrece e o que é apenas neura, diluir o que me aborrece no copo do "porque me aborrece", e ver se, o que o outro faz, me aborrece porque ele faz ou porque eu não estou pronta para aceitar o que ele faz.
Por exemplo, me senti muito abandonada quando meu ex-marido não conseguiu dar andamento no tratamento dele em NA e decidiu ser internado, 6 meses de "solidão", depois continuei me sentindo assim, ele saiu da internação e frequentava assíduamente TODOS OS DIAS, as reuniões do NA por aqui - em SP existem mais de 60 grupos de N.A, uns 10 eu conheço pessoalmente - depois quando a frequência no NA caiu, foram os estudo para o curso técnico ou a faculdade que "tomou" meu marido, nessa época eu deveria estar me sentindo feliz e realizada, não é mesmo? Afinal... "ele evoluiu, buscou a solução para seus problemas", mas ao invés disso eu parecia uma neurótica, saía do trabalho correndo, pegava minha filha na casa da avó, corria pro mercado, depois pra casa, corria pra fazer a janta para que enfim ele chegasse do trabalho e pudesse ao menos jantar com a família antes de ir pra reunião ou pro curso, ao invés disso, ele sempre chegava correndo, demorava uma hora no banho, saía correndo, passava pela mesa posta da janta , "roubava" um pedaço de qualquer coisa, dizia que estava atrasado e ia embora para o compromisso dele.
Tomei esse veneno por um longo tempo, engordei 30 kgs, risquei meu rosto com algumas rugas e pés de galinhas, sujei as roupas de óleo de fritura e quase todas as minhas camisetas andavam furadas, meu cabelo foi ficando cada vez mais curto e mais colorido (é, rs, eu também vou no cabelereiro atrás de mudanças, quando não sei o que me incomoda).
Um dia percebi que o sentimento de abandono que eu sentia não era porque ele havia me "trocado", mas porque ele havia pegado de volta a própria vida e agora eu não tinha mais ninguém pra "cuidar", afinal eu não sabia que podia cuidar de mim mesma!
Numa noite, olhei pra minha imagem no espelho, eu parecia mais uma mistura de Samantha Morgan (o chamado) com Stay Puft (Monstro de Marshmallow ), a imagem do espelho me fez chorar por algumas horas e me assombrou a mente por alguns dias, me assustou perceber que por algumas longas 24hs na minha caminhada de recuperação eu havia ficado estagnada, achando que tudo estava bem.
Afinal, infelizmente, eu ainda achava que o espelho da minha recuperação era o outro, no caso o adicto, então se tudo com ele estava bem, eu deveria obviamente estar bem, correto? Ledo engano!
Eu estava um caco, um lixo, uma assombração e um monstro de marshmallow! rs...
Cuidar de mim, da minha auto-estima, e da minha própria recuperação foi uma das coisas mais emocionantes que eu fiz e faço até hoje!!! A primeira atitude que eu tomei - além de cortar, alisar e tingir de novo o cabelo - foi me matricular numa academia de dança (adoro dançar), mas não foi qualquer uma não... Foi numa academia de dança do ventre, rsrs, sem vergonha nenhuma coloquei minhas "milhas" de peso num véu de dança e fui eu saculejar o quadril de um lado pro outro - tive que parar por causa da $$, mas eu ainda volto! - depois foi aprender a descobrir o que eu realmente gostava de fazer, descobri que cozinho muito bem, mas odeio cozinhar, gosto mesmo é de uma boa comida - bem feita e bem apresentada, aprendi que gosto de falar, conversar, conhecer pessoas, circular por aí - o que sou sincera em admitir que estou em falta comigo mesma ultimamente, mas 2012 está aí e novas mudanças virão! - descobri que gosto de perfume, roupa nova, salto alto, e de galanteios ( acho que por isso que eu adoro um baile de 3ª idade, os cavalheiros sempre nos "tiram" para uma dança, vem nos buscar na mesa e nos devolvem inteiras à mesa depois da dança, sem contar o fato de que se tivermos sorte um "cavalheiro anônimo" manda nos entregar uma rosa! rsrsr).
E venho descobrindo mais, descobri que não tenho um batom especial (Ei Gaby! rsrs), mas que também não tem me feito falta, mas mesmo assim me faz rir a idéia, descobri que adoro maquiagem, e que amo de paixão as pessoas que hoje fazem parte da minha vida, descobri que amo o meu trabalho porque trabalho com pessoas que amo.
Descobri nesses últimos meses que eu ainda tenho que trabalhar muito minha assertividade,  nos momentos em que eu preciso conversar com o "papai" (pai da minha filha), porque ele ainda nutre por mim um sentimento forte de "ameaça" - é, eu sou bem o ditado : "quando quero ser boa sou muito boa, mas quando quero ser ruim sou melhor ainda!" -  aprendi que tenho que aprender a ser assertiva também com o Sr. Miague, porque por mais que ele pareça forte, centrado e inabalável, é também muito sensível, e carente, e as vezes meu jeito destrambelhado e prático de resolver as coisas acaba por assustar e magoar ele.
Mas acho que o mais importante disso tudo for ter aprendido e me amar mais, e me amando mais acabo amando mais as pessoas ao meu redor, escolhendo mais quem se aproxima e quem eu preciso continuar mantendo uma distância segura de mim e por mim.
Só por hoje exercito o amor incondicional por mim mesma, me amo assim, e cuido de mim assim, muito bem, me protejo, me acalento e me mimo, afinal como "amar o próximo como a mim mesmo", se ao menos não sabemos nos amar de forma saudável e incondicional.
Então quando lhe digo companheira(o), que lhe amo incondicionalmente, não leve a mal - não é uma "cantada", nem uma loucura - é apenas porque aprendi a me amar incondicionalmente e por isso
EU TAMBÉM LHE AMO INCONDICIONALMENTE!!!


5 comentários:

Gaby disse...

Gata, somos muito parecidas mesmo, inclusive pela paixão pela dança do ventre, é tudo de bom não é? E pelo resgate da auto-estima e do amor próprio, estamos conquistando esse amor incondicional por nós mesmas e consequentemente pelo próximo também!
Quando agente começa a se amar e se valorizar, os outros também acabam fazendo isso...
Hoje em dia estou me amando muito mais!
Bem...temos muita coisas em comum, inclusive o modo que o budismo entrou na nossa vida... ;)
Te amo, te amo, te amo... incondicionalmente, como amo a mim mesma!!!

VALEU A PENA disse...

Amo você e cada palavra sua, amo verdadeiramente, amo por me ver em sua história, por me sentir acolhida com suas postagens...
Simplesmente perfeita!!!
Aprendo a cada dia... Beijos

adicto em recuperação disse...

É isso aí, amiga!
Adorei ler isso!! Um post excelente!
Realmente esse tema "amor e ódio" tem sempre colocado muita gente atrás das grades imaginárias construídas por sí próprio.
Eu tô, aos poucos, me livrando destas prisões.
Abração, amiga!
TAMUJUNTU.

Emily disse...

Cici !!! Ler essa postagem transmitiu pra mim um UP, to precisando me cuidar, desde que perdi meu bebe a barriga continua a mesma, e os cabelos affff, recebi de voce agora aquele "ACORDA MENINA" rsrs
Tmujunta Flor !!!!!! bj bj

Registrando a Vida disse...

Como sempre neh Cicie, obrigada
COmigo foi igual com a Emily.
Levantou minha moral
me sacudiu
me fez olhar pra mim mesma e perceber o quanto eu mudei, por mim, o quanto eu ainda preciso mudar.
Bjoooss te amoooo demais
Bjossss

 

··¤(`×[¤Cicie e Ana¤]×´)¤··

"Insanidade é fazer as mesmas coisas, esperando resultados diferentes." Descobrimos que sozinhas não conseguiríamos, mas que com pessoas que buscam as mesmas vitórias, nos sentimos mais fortes,menos solitárias, e mais conectadas com nosso Poder Superior. Um dia de cada vez a gente junta um ano.

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