http://soporhoje2.blogspot.com - "SÓ O AMOR SALVA - RELATO DE UM RECAIDO"

***TEXTO RETIRADO DO BLOG ACIMA***
Tem momentos na vida que desejamos escrever e as palavras parecem fugir e ficamos a expressar o nosso pensamento de modo inadequado. Ainda assim decidi desabafar por escrito, neste blog, só por hoje.
Há momentos em nossas vidas que nos desconhecemos, nem sequer nos reconhecemos. Ontem fui me ver no espelho. Estava cabeludo e com a barba em péssimo estado, de tal forma, que o meu aspecto indicava abandono. Isso é fruto de um despreo total pelo próprio ser, uma perda da auto estima que não consigo entender muito bem porque me ocorre isso de me largar, me abandonar, de me deixar ao léu da sorte. Não, não quero isso, mas é assim que fico até que vem o momento da reação e da busca por melhoras em meu estado de alma.
Há momentos em que negamos tudo o quanto pensamos e fomos. Perdemos o referêncial, nem passado, nem presente e sem futuro. Não somos nada...
Há momentos em que mudamos para melhor, ou para pior. Momentos em que buscamos nos proteger e momentos que nos perdemos por completo, até que venha a consciência a nos despertar para o erro e nos chamar de volta.
Não tenho razão alguma de esconder que me perdi em algum momento da minha vida e não faz muito tempo. Sou, antes de tudo, um depressivo crônico. Isso é um fato que pouca gente compreende e entender um ser que padece face a depressão leva o sujeito a sofrer milhares de juízos errôneos.
Mas vamos ao que interessa. Como iniciei este processo que não desejo a ninguém e não quero pra mim, embora me envolva de tal modo que não consigo me desprender totalmente.
De franco defensor de inúmeros valores e princípios, lá um dia, submetido a uma crise conjugal em que a esposa foi embora, para o interior, e me deixou só, fiquei abalado, talvez por estar em uma faixa etária que não é mais nenhuma primavera. Vivo o outono da minha existência. É a vida que agora desce ladeira abaixo iniciando o processo da velhice.
Em meio a essa crise conjugal, só e esquecido, ouvido emissoras de televisão falando contra drogas, enfatizando o mal que o crack causa ao ser humano, fui tomado por uma perturbação mental; deprimido, desarrumado, desnorteado, sem ter com quem conversar, me veio um instinto destrutivo tomar conta dos meus pensamentos. Veio a idéia pessimista do está tudo acabado e, em meio a isso tudo, ocorreu-me experimentar a drogra mais perversa que alguém pode experimentar, ao menos no Brasil. É algo muito estranho o que me ocorreu e não sei explicar tamanha insensatez e loucura.
Havia próximo de casa uma invasão, onde, sabia-se, usava-se e vendia-se crack. Confuso e em meio a este estado mental debilitador, com a voz de quem fala pra dentro, cheio de timidez, busquei ir a tal invasão para conhecer a tal droga. Uma pessoa conhecida, que fazia uso da mesma, foi compra-la. Não sabia sequer como era. Feito a compra ele me indicou como alternativa, para fumar, um barraco de um conhecido dele. Fomos para o local. Ele me deu a droga, mas eu não sabia o que fazer e disse ao mesmo. Entáo ele disse: isso é fácil, vou lhe ensinar. Ensinou. Entretanto, usava e achava que a mesma não estava fazendo efeito. Não sabia usar a droga. Na verdade, para minha felicidade, nunca soube mesmo usar a droga. Como achava que não estava fazendo efeito e nada sentia de anormal, pedia que comprasse mais. Comprava e era - para mim - jogar dinheiro fora.
Depois, voltando para casa, me achei tão incapaz que nem mesmo a droga de uma droga eu sabia usar. Voltei à invasão dia seguinte. Dessa vez fui ao sujeito que vendia. Um pobre coitado. Fodido. Um miserável que vendia a merda, para sobreviver com uma mulher e filhos. Desolador o quadro. Comprei e fui ao segundo estágio e nada funcionou direito. Fui repetindo, enquanto jogava dinheiro fora e, outras pessoas vinham se apresentando para ver e pedir um pouco da droga. Fui usando e, não me dava conta de que estava sendo furtado. Tanto na droga, quanto no dinheiro posto no bolso, fácil de, com apenas dois dedos, me retirarem alguns trocados. A droga, nos incautos, como eu, nos inofensivos, que são julgados como otários, por serem de boa índole e de outro nível social, deixa o sujeito desatento, sem noção exata e com perda da memória recente, que se apaga. Neste quadro os malandros tiram proveito. Terminamos como otários pois não vamos nos tornar violentos, nem nos nivelarmos por baixo. Apenas registramos o fato e faemos de conta que nada aconteceu.
Eis que cheguei ao estágio de sentir algo diferente dentro de mim. Vergonha e medo, até chegar a um estado de paranóia e idéias persecutórias, caracteristicas do que via e ouvia na TV, um quadro meio esquizóide. Nesse aspecto, a maioria dos usuários sente-se desta maneira, outros nem parece que usam e ficam extremamente tranqüilos. Neste processo é que percebemos que o medo, nada mais é que o medo de morrer, de ser preso, de sofrer algum tipo de retaliação e, até mesmo ser assaltado e traído. Nesse momento é que o sujeito descobre que dentro de si o instinto da vida permanece vivo, lutando contra a morte e o ser humano sente necessidade de estar vivo, de sair daquele inferno e ai vem o medo de ser abordado pela polícia, ou de ser assaltado por bandidos. Na maioris dos casos tudo é ilusório.
Foi assim, em um momento de abandono e solidão, que iniciei a negação de tudo quanto fui, pois não perdi meus valores, nem o caráter, nem nada, mas, a droga é perversa. Ela muda as pessoas. Leva o sujeito a negação do próprio ser e pode adequar o sujeito ao meio. É diabólica ! Mas é preciso que se compreenda que trata-se de um universo complexo onde nem todos são iguais, salvo quanto ao uso da droga.
Talvez seja isso. Também observava que havia, psicológicamente, uma fraqueza mental e espiritual em todo este processo que me conduziu ao crack.
O consumo aumentou e as finanças caíram. Quando a mulher voltou eu já estava habituado a consumir a droga. Quando não tinha dinheiro oferecia algo em troca, decompondo-me e me humilhando. Quando passava o efeito me recompunha e me contestava. Prometia a mim mesmo não mais cair na repetição do que eu, conscientemente, em estado sóbrio, considerava um erro. A mulher voltou e ao ficar sabendo deu para me investigar e iniciou um outro processo de crise.
Meu processo de dependência dela, transferiu-se para a droga. Dependente, acabei por criar a co-dependente e, dai, nasceu um tipo de ralação diferente, onde a codependente, em meu quadro, não tinha sossego. Iniciou-se uma fase horrivel e, a cada briga no lar, era lançado, cada vez mais, aos antros de proliferação de uso e venda. Minha vontade não era mais a minha vontade. Havia dentro de mim um desgosto que se aprofundou. Era como se dentro de mim estivessem em luta a vida contra a morte. O que mais se deseja nestas horas não é briga, mas carinho, amor e atenção. Inferno por inferno, o sujeito vai para as ruas.
Sem saber me misturei com pessoas (para usar) cujos comportamentos e hábitos desconhecia. Infelimente isso acontece por falta de lugares adequados a outro tipo de usuário. Nesses antros fui explorado e o processo de dependência nos deixa cego.
Havia momentos, em que, por conta própria, eu parava e deixava de usar e passava a me ocupar de outras coisas, mas sempre chegava um momento, não sei qual o elemento propulsor, que me tirava do rumo certo para recomeçar tudo outra vez. Assim fui evoluindo para um estágio de maior degradação.
Bem, vou poupar o leitor de certos detalhes, mas chegou o dia em que me rendi e pedi ajuda e fui imediatamente atendido. Fui internado e o tratamento não era medicamentoso e, baseava-se no que podemos assistir no filme estrelado por Sandra Bullock, "28 DIAS". Fiquei 45 dias e sai após o carnaval. Levei meses limpo até que um dia, algo desencadeou em mim o processo de recaída. Ao sair da clínica o codependente passa a ser nocivo na superproteção e, até mesmo, inconvenientes. Agravam o estado de quem se acha em recuperação.
Devo ressaltar que ao sairmos da Clínica especializada, temos que traçar metas a cumprir. Procurei cumprir as 4. Mas, por razões que não merecem exposição, acresço que só cumpri o período da "Quarentena", enquanto busquei ir a algumas reuniões de grupos. Mas, meus co-dependentes, não se cuidaram pois nunca se renderam a evidência de que portam uma doença que eles contrairam face a minha dependência. Por mais que um co-dependente, que não se cuida, ache que está bem com o seu dependente, ele não vai proceder de maneira adequada.
Enclausurar, instituir uma liberdade vigiada, viver remexendo nas coisas do dependente, manter o clima de descrédito e desconfiança e tantas coisas mais, não podem levar a bons caminhos, ou a bons resultados. Amor e ódio não casam bem.
Quando ocorre a recaída a relação entre o dependente e o co-dependente mescla inúmeros sentimentos negativos com bem poucos sentimentos benignos. Daí em diante a relação torna-se de mal a pior. Vem a deteriorização. Ocorre o afastamento, cria-se um isolamento e o dependente passa a ouvir agressões de toda sorte e ninguém se põe no lugar do outro. Novamente abandono, indiferença, isolamento e solidão, além da repressão injustificada.
A falta de conhecimento e informação é enorme nos co-dependentes que não se cuidam. Nasce um novo mundo de descrença, descrédito, desconfiança que beira à raiva e o ódio. Ódio muitas vezes com caracteristicas mortais, como o procedimento de um filho que sai armado para matar o próprio pai. São situações extremadas que envolve uma preocupação exacerbada do co-dependente com a própria vaidade e a própria reputação, que enxergam maculada pelo dependente. Dai nasce o ódio que não nasce do desejo de ver o dependente bem, na verdade. O sentimento que passam, que transmitem, e que captei é o pior possivel. Não é, no fundo, a nossa saúde e bem estar que está em jogo, mas a reputação alheia, a vaidade alheia, os desejos alheios, e se inicia um processo destrutivo da personalidade do dependente.
Em meu caso específico, creio, que no fundo a cura está no amor. Mas, comigo esse amor não mais existe se é que um dia existiu. Para o dependente é um amor impossivel e, se no coração de uma esposa havia realmente amor, só ela pode restaurar tudo o que se perdeu através do amor, de uma boa relação estabelecida através da verdade e do dialogo aberto, franco e absolutamente sincero, sem desprezo ou menosprezo, sem indiferença, com carinho e o cuidado provenientes de um companheirismo que nem toda parceira está disposta a ser, no mundo atual.
Ninguém quer sacrificio, embora nos primeiros tempos do amor tenha jurado estar com o seu amado, na saúde, ou na doença. Mas, na hora da crise a primeira coisa que ocorre é a fuga.
Acresço ainda que, não sendo bastante a falta de informação dos co-dependentes, ainda há o envolvimento de aderentes e de terceiras pessoas que passam a servir de conselheiros. Tudo isso, as intromissões indevidadas e até impróprias, geram o agravamento do quadro do dependente. Se o co-dependente não tratado já é ruim, imagine terceiros e os aderentes se envolvendo na questão, com os péssimos e extremados conselhos.
Não, não é por ai o processo em que o dependente vai se reencontrar.
Falo por mim e nem tudo está dito, pois este relato não é um livro, nem uma autobiografia. Devo infinitas reparações, inúmeros pedidos de desculpas e de perdão pelo meu mal procedimento, tudo fruto de um estado de insanidade desencadeado pela fraqueza mental, na minha apreciação.
Abstrai deste texto tudo quanto aprendi e o deixo do jeito que se encontra para que o leitor possa analisa-lo, com um olhar mais complacente, mais condescendente e, sobretudo, com os olhos de quem ama o próximo. Aoa profissionais, ai está o meu relato sincero, passivel de crítica, mas, sobretudo, sincero e verdadeiro. Não sou uma equação matemática, não sou exato, sou humano.
Não pretendo recair, mas recaio e, com isto, elevo o grau de ódio e raiva que nutre muitos corações, seja no lar, seja na rua. Infelizmente, como diz uma canção, A HUMANIDADE É DESUMANA.
Para finalizar tem umas frases sugestivas, tipo, "Quando a gente ama, claro que a gente cuida" e, outra: SÓ O AMOR CONSTRÓI.
Quando leio em algum canto escrito: SÓ JESUS SALVA, eu entendo a mensagem da seguinte forma: SÓ O AMOR SALVA.

3 comentários:

Erico disse...

Deixo um fraternal abraço e o desejo de unidade crescente entre todos os que lutam por dias melhores.
SPH























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Anônimo disse...

Parabéns pelo relato tão claro e sincero. Nos leva a refletir... As promessas de amar e cuidar não me saem da cabeça, porém o compromisso é recíproco não é? O co dependente também espera carinho e amor... Também espera consideração... É muito difícil para os 2 lados. Escuto do meu marido que eu o coloco contra a parede e exijo demais... Será que querer criar as filhas em um ambiente de paz e amor é exigir demais? Será que querer um bom homem é querer demais? Será que desejar que o dinheiro da família seja usado para as despesas de casa é querer demais? Como confiar em alguém que mente o tempo todo para conseguir satisfazer seu vício? Que gasta um bom dinheiro com psiquiatras psicólogos e remédios com o esforço do casal e joga tudo pelo ralo pq está "numa fase difícil"? Será que meus questionamentos são egoístas? Procuro está resposta dentro de mim para saber que rumo darei a minha vida... O lar amoroso é também o que busco depois de um dia cansativo de trabalho, mas muitas vezes encontro um marido alcoolizado e drogado.

··¤(`×[¤Cici¤]×´)¤·· disse...

Não é egoísmo. Você pode escolher

 

··¤(`×[¤Cicie e Ana¤]×´)¤··

"Insanidade é fazer as mesmas coisas, esperando resultados diferentes." Descobrimos que sozinhas não conseguiríamos, mas que com pessoas que buscam as mesmas vitórias, nos sentimos mais fortes,menos solitárias, e mais conectadas com nosso Poder Superior. Um dia de cada vez a gente junta um ano.

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